30 anos de Parada LGBT+ em SP: por que direitos conquistados ainda estão em disputa no Brasil

  • 07/06/2026
(Foto: Reprodução)
Participantes da primeira edição da Parada LGBT+ na Avenida Paulista em 1997. LULUDI/Estadão Conteúdo Trinta anos após a primeira edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, a maior manifestação da comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil continua ocupando as ruas por uma razão que vai além da celebração. Embora avanços históricos tenham sido conquistados nas últimas décadas, especialistas e ativistas alertam que muitos desses direitos ainda permanecem vulneráveis a disputas políticas e tentativas de retrocesso. Realizada pela primeira vez em 1996, na Praça Roosevelt, no Centro da capital paulista, a Parada reuniu cerca de 500 pessoas. Três décadas depois, atrai mais de 2 milhões de participantes para a Avenida Paulista e é reconhecida pelo Guinness World Records como a maior parada LGBT+ do mundo. Ao longo desses anos, o evento acompanhou e ajudou a impulsionar debates que resultaram em conquistas importantes para a população LGBTQIAPN+, como o reconhecimento da união estável e do casamento homoafetivo, a possibilidade de retificação de nome e gênero em documentos sem necessidade de autorização judicial e a criminalização da homofobia e da transfobia. Para o professor de direito da Unifesp e coordenador do Núcleo TransUnifesp, Renan Quinalha, as paradas cumprem um papel fundamental ao dar visibilidade à comunidade, dialogar com a sociedade e pressionar o Estado por mudanças. "Então as paradas conseguiram sempre fazer um papel de diálogo com a sociedade, de mostrar a existência pública dessas identidades, desses corpos, e de poder pressionar também os poderes constituídos e disputar a mentalidade da sociedade para que a gente tivesse uma cultura de maior diversidade no nosso país." Apesar dos avanços, ele ressalta que a maior parte dos direitos conquistados pela população LGBTQIAPN+ no Brasil não surgiu por meio de leis aprovadas pelo Congresso Nacional, mas por decisões do Poder Judiciário. Segundo ele, essa característica torna as conquistas mais suscetíveis a mudanças de entendimento nos tribunais e a transformações no cenário político. "É muito mais fácil alterar uma decisão de um Supremo Tribunal Federal do que alterar uma legislação, que seja proposta e aprovada no Legislativo, depois sancionada pelo Executivo e ainda submetida a um controle judicial. Então a gente ainda precisa avançar nesse sentido, porque isso cria uma cidadania precária ou limitada e de muita insegurança ainda para a população", explica Quinalha. Drag queen Sissy Girl participa da 29ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, na Avenida Paulista, Centro de SP. Luiz Gabriel Franco/g1 E ressalta: "Existe, sim, um risco de retrocesso. Os direitos nunca estão escritos em pedra, eles nunca são sólidos o suficiente para não serem mudados. Então é fundamental que haja uma vigilância constante, uma mobilização social para a manutenção e o aprofundamento dos direitos e a sua efetivação. É para isso que as paradas servem, elas são manifestações de força política da comunidade". Os receios apontados por especialistas têm sido alimentados por acontecimentos recentes no Brasil e no exterior. Em maio deste ano, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou em primeira votação um projeto de lei que proíbe a presença de crianças e adolescentes em eventos que "façam alusão ou fomentem práticas LGBTQIA+", incluindo a Parada do Orgulho LGBT+ da capital, mesmo quando acompanhados pelos pais ou responsáveis. A proposta também determina que eventos com temática LGBTQIA+ sejam realizados apenas em espaços fechados e com controle de entrada, proibindo a ocupação de vias públicas. Especialistas ouvidos pelo g1 classificaram o projeto como inconstitucional e discriminatório. Como resposta a este PL, há também parlamentares que apresentam projetos de lei que visam fortalecer os direitos da população LGBTQIA+, como o que declara a Parada como Patrimônio Cultural Imaterial do estado, de autoria da deputada estadual Ediane Maria (PSOL) e que está em tramitação na Assembleia Legislativa do estado de SP (Alesp). O professor avalia que, mesmo quando há decisões favoráveis nos tribunais superiores, a implementação desses direitos ainda enfrenta obstáculos nas instituições e na própria sociedade. "Temos uma cúpula do sistema de Justiça que decide positivamente, mas na base ainda existe muita dificuldade para concretizar esses direitos por conta de barreiras institucionais e de uma cultura que continua sendo intolerante em muitos aspectos", pontua. O debate ocorre em meio à expansão de movimentos conservadores em diferentes partes do mundo. Nos últimos anos, ganhou força o chamado movimento anti-woke, uma reação política e cultural contra pautas progressistas relacionadas a diversidade, inclusão e direitos de minorias. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump promoveu uma série de medidas que restringiram políticas de diversidade e direitos de pessoas trans. Em 2025, por exemplo, assinou uma ordem executiva que interrompeu o financiamento federal para procedimentos de afirmação de gênero destinados a menores de 19 anos. Segundo a organização da Parada, esse cenário também já produz reflexos no evento. A edição de 2026 registrou uma redução de cerca de 60% no número de patrocinadores em comparação com o ano anterior. Por que a parada LGBT+ de SP está com problemas de investimento? Antes dos tribunais, a Paulista Se especialistas apontam que a consolidação dos direitos ainda é um desafio, os organizadores da Parada defendem que a mobilização nas ruas continua sendo uma das principais formas de pressão política da comunidade. Para Matheus Emílio, um dos diretores da Parada do Orgulho LGBT+, praticamente todas as pautas que mais tarde resultaram em avanços judiciais passaram antes pela Avenida Paulista. "As ruas seguem sendo esse espaço de gritarmos e reivindicarmos por esses direitos que ainda são negados, que ainda são garantidos apenas por decisões judiciais e não por lei. Por isso a Parada está na rua nesses 30 anos e vai continuar enquanto for necessário." Um dos exemplos lembrados pelos organizadores ocorreu em 2005, quando o tema da manifestação foi "Parceria civil já! Direitos iguais: nem mais, nem menos". Seis anos depois, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo, equiparando-a às uniões heterossexuais. Em 2013, uma resolução do Conselho Nacional de Justiça determinou que cartórios de todo o país passassem a celebrar casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo e converter uniões estáveis homoafetivas em casamento. Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo celebra envelhecimento da população gay na 29ª edição na Avenida Paulista, neste domingo, 22 de junho de 2025. Luiz Gabriel Franco/g1 "Todas as pautas relevantes para a população LGBT+ passaram pela Paulista antes de serem conquistadas nos tribunais", afirma Emílio. Na avaliação dele, a necessidade de recorrer constantemente ao Judiciário para garantir direitos demonstra uma omissão histórica do Poder Legislativo. Apesar de termos essas conquistas ao longo desses 30 anos, elas não estão garantidas em lei. A gente vê com clareza essa omissão do Poder Legislativo. Temos tido a necessidade de tanta judicialização por questões de direitos que isso, inclusive, foi tema da Parada de 2024. Três décadas depois da primeira edição, a Parada reúne milhões de pessoas em um contexto muito diferente daquele de 1996. Ainda assim, para ativistas e pesquisadores, a necessidade de ocupar as ruas permanece. "A Parada é, sim, um momento de fervo e de celebração, e isso também faz parte da nossa luta. Não é porque mudou a característica que deixou de ser luta. Em um país que mata tantas pessoas LGBT+, celebrar que estamos vivos também é uma forma de lutar." Veja 30 anos de conquistas LGBTs Arte/g1

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/06/07/30-anos-de-parada-lgbt-em-sp-por-que-direitos-conquistados-ainda-estao-em-disputa-no-brasil.ghtml


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