‘Terra de gigantes’: serra em MG revela plantas raras e espécies únicas em área pouco conhecida

  • 28/05/2026
(Foto: Reprodução)
Espécie de Velloziaceae gigantea Paulo Gonella Uma cadeia de montanhas no leste de Minas Gerais tornou-se um dos lugares mais interessantes do país para pesquisas sobre a biodiversidade: a Serra do Padre Ângelo. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Localizada entre os municípios de Conselheiro Pena e Alvarenga, a região já revelou dezenas de espécies novas para a ciência, além de plantas gigantes, populações raras de araucárias e ecossistemas únicos da Mata Atlântica. Até pouco mais de dez anos atrás, os cientistas exploravam pouco a área. Hoje, pesquisadores consideram a serra um dos principais refúgios naturais da região do médio Rio Doce. Expedições realizadas nos últimos anos ampliaram bastante o conhecimento sobre a biodiversidade local. ‘Terra de gigantes’: serra em MG revela plantas raras e espécies únicas em área pouco conhecida Paulo Gonella Pelo menos 28 espécies novas já foram descritas na Serra do Padre Ângelo e em seus arredores, além de vários novos registros de fauna e flora. Os pesquisadores também encontraram bromélias raras, margaridas exclusivas dos topos das montanhas e espécies ameaçadas que sobrevivem em pequenas áreas isoladas. Entre as descobertas, destaca-se o gênero de planta chamado de Gyrosphragma, classificado em 2022. O botânico Paulo Gonella, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e autor principal de um levantamento sobre as expedições feitas no local, afirma que a ciência ainda estuda muitas das espécies encontradas. “Grupos menos pesquisados, como insetos e outros invertebrados, provavelmente escondem ainda mais novidades”, afirma o pesquisador. O estudo foi publicado no Boletim do Museu de Biologia Mello Leitão do INMA. Veja também: Brasileira vence desafio global com registros de sons de aves no Japão 'Sempre foi um sonho', diz guia após registro de duas onças-pintadas melânicas 'Barba-de-moisés': a planta que parece soltar fumaça, mas esconde mecanismo explosivo “Terra de Gigantes” - o início Espécie de Gyrosphragma latipetala Paulo Gonella A história da “Terra de Gigantes” começou a mudar em 2010, quando uma fotografia publicada por um morador da região chamou a atenção de Paulo Gonella nas redes sociais. A imagem mostrava uma planta carnívora diferente de qualquer outra conhecida no Brasil. “Quando vi aquela foto, percebi imediatamente que era algo muito incomum. Primeiro achei que estivesse na Serra do Espinhaço, onde existem espécies parecidas, mas depois descobrimos que era uma montanha isolada e praticamente sem pesquisas botânicas”, conta Paulo. Veja o que está em alta no g1: Agora no g1 Descrita oficialmente em 2015 como Drosera magnifica, a planta ganhou repercussão internacional. Hoje, os pesquisadores a consideram a maior planta carnívora das Américas, pois ela pode ultrapassar 1,5 metro de comprimento. A descoberta marcou a primeira vez que a ciência identificou uma planta carnívora a partir de imagens divulgadas em redes sociais. Além de revelar uma nova espécie, o achado abriu caminho para uma série de pesquisas, com o objetivo de explorar a riqueza biológica escondida na serra. As gigantes da serra Araucaria angustifolia Paulo Gonella Além da planta carnívora gigante, os pesquisadores encontraram na região a canela-de-ema-gigante (Vellozia gigantea), que alcança até sete metros de altura e vive por centenas de anos. Antes das pesquisas na Serra do Padre Ângelo, os cientistas conheciam a planta apenas em áreas da Serra do Cipó, a cerca de 200 quilômetros dali. Com tamanho impressionante, a planta desempenha um papel importantíssimo no ecossistema, pois abriga líquens, bromélias, orquídeas e outras espécies menores em seu tronco. Segundo Paulo, a presença dessas espécies monumentais inspirou o apelido de “Terra de Gigantes”. Outra descoberta importante foi a confirmação da população de araucárias mais ao norte já registrada no Brasil, embora restem poucos indivíduos da espécie na serra. Vegetação rara MG: Serra tem plantas raras e espécies únicas em área pouco conhecida Paulo Gonella Uma das características mais surpreendentes da região é a presença de campos rupestres — um tipo raro de vegetação montanhosa que cresce em áreas rochosas, geralmente em maiores altitudes, com solo pobre, pouca água e clima extremo. A palavra "rupestre" refere-se a tudo que cresce, se esculpe ou se desenha sobre as rochas. Mesmo ocupando menos de 1% do território brasileiro, os campos rupestres concentram cerca de 15% das espécies de plantas do país, segundo o estudo. Na Serra do Padre Ângelo, esses ambientes aparecem isolados em meio a áreas degradadas da Mata Atlântica, cercados por pastagens, queimadas, cafezais e plantações de eucalipto. “Esses ambientes funcionam como ilhas naturais. Como ficaram isolados por muito tempo, várias espécies acabaram evoluindo apenas ali”, conta o pesquisador. Os estudos mostram que a serra possui grande variedade de ambientes, como paredões rochosos, áreas alagadas, campos arenosos, matas de altitude e pequenas florestas protegidas entre as montanhas. Essa diversidade ajuda a explicar a quantidade de espécies raras e endêmicas — que ocorrem somente naquele local — encontradas na região. “Com essa vegetação de campo rupestre isolada no topo das montanhas, temos uma biodiversidade e uma riqueza de espécies muito peculiar e distinta de outros locais”, diz Paulo. Fonte hídrica e perigos Drosera magnifica Paulo Gonella A Serra do Padre Ângelo tem um papel fundamental no abastecimento hídrico das cidades da região. Com córregos e nascentes que alimentam as bacias do Rio Doce e do Rio Manhuaçu, o local é essencial para diversos municípios, o que torna sua preservação imprescindível. Infelizmente, em algumas áreas, a serra sofre pressão crescente de queimadas, turismo desordenado, erosão, avanço da pecuária e presença de espécies invasoras. A pesquisa alerta que várias espécies existem apenas em pequenas áreas e podem desaparecer rapidamente sem medidas efetivas de proteção. Ao mesmo tempo, os cientistas destacam que o relevo acidentado atua como um aliado na preservação e já ajudou a conservar partes importantes da vegetação nativa ao longo das últimas décadas. “Cerca de 70% da cobertura dessa região é pastagem e o pouco de vegetação nativa que sobrou está em pequenos fragmentos. Nesse cenário, a Serra do Padre Ângelo resistiu por conta do relevo mais acidentado, que dificultou a conversão das suas florestas e campos em pasto”, completa o botânico. Ele também destaca que o papel dos moradores locais foi essencial, já que muitas descobertas só ocorreram graças à ajuda da comunidade, que conhece trilhas, nascentes e áreas mais “escondidas”. Paulo defende a adoção de medidas permanentes de conservação para evitar que essas espécies únicas desapareçam antes mesmo de os cientistas as estudarem totalmente. “Durante muito tempo, a Serra do Padre Ângelo permaneceu invisível nos mapas científicos e nas políticas de conservação. Hoje, sabemos que ela abriga uma biodiversidade única e um patrimônio natural de importância nacional. O desafio agora é garantir que essa riqueza sobreviva”, conclui o pesquisador. *Sob supervisão de Rodrigo Peronti. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/05/28/terra-de-gigantes-serra-em-mg-revela-plantas-raras-e-especies-unicas-em-area-pouco-conhecida.ghtml


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